Produção Cultural no Brasil

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Carlos Augusto Calil

Secretário municipal de Cultura de São Paulo

Íntegra da entrevista, gravada no dia 29 de junho de 2010 no estúdio Cine & Vídeo, em São Paulo (veja a entrevista em vídeo clicando em http://www.producaocultural.org.br/slider/carlos-augusto-calil/)

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Carlos Augusto Calil, professor de cinema e – por acaso, neste momento – secretário de Cultura de São Paulo.

Eu sou capaz de dizer para você, se você me perguntar "Para fazer cinema precisa aprender na escola?": "Não precisa aprender na escola, você tem outros meios de aprender a fazer cinema, então a escola não é o caminho inevitável". Agora, a gestão pública, não sei. Eu diria para você o seguinte: "Existem, sim, certas disciplinas que você teria que se apoderar para poder se tornar um gestor público", mas a vocação do gestor público pressupõe esse entendimento de que você está ali representando um interesse coletivo.

Eu me lembro de uma matéria que saiu na Folha de S. Paulo que criticava um dos nossos equipamentos, criticava corretamente, mas não elogiava aquilo que a gente tinha feito. Daí eu liguei, ligamos para o editor e o editor falou: "O que vocês fizeram de bom não me interessa, só me interessa o que vocês deixaram de fazer". Então, é pau em cima de pau, em cima de pau, em cima de pau – e nunca o reconhecimento! Eu imagino... Deve ser um traço do masoquismo, só apanhar.

Política cultural era para ser muito interessante, muito estimulante. Quando você vê resultado nela, ela te realimenta novamente. A outra política, esta é muito complicada, sobretudo quando eles instrumentalizam a cultura. Eu acho que a cultura não pode nunca ser instrumentalizada pela política. Aliás, eu não vou dizer para você inocentemente que não existe nenhuma aproximação entre a política e a política cultural; estas mediações sempre haverá, mas a política cultural não pode se subordinar à política partidária, nunca.

Então dá para pensar que você pode fazer coisas relevantes, como muitos fizeram na ditadura militar. Não precisava ser um torturador, sargento, para ser dirigente cultural da ditadura militar. Havia, como sempre há, brechas para você atuar, como hoje não significa que tudo tem que ser privatizado, tudo tem que ser mercantilizado. Por outro lado, negar o mercado é bobagem. O mercado existe antes da gente se constituir e continuará existindo depois da gente desaparecer, portanto é uma bobagem. O mercado é um dado da realidade. Artistas que dizem "Eu não produzo para o mercado" são ingênuos ou são narcisistas.

Diretor precisa ter que prestar contas. Mas há prestações de contas e prestações de contas. Eu não sei se pedir todas as notas fiscais de determinada filmagem é a melhor maneira de você prestar contas, ou receber as contas, porque você sabe muito bem que você pode forjar tudo aquilo. Portanto a prestação de contas não se dá necessariamente pelos documentos contábeis, ela se dá pelo resultado do trabalho com alguns documentos contábeis. Eu não vou dizer que nenhum documento contábil é necessário, mas essa mania de querer controlar o gasto, quando a gente sabe que produção de arte, produção de cultura, tem muitos graus de liberdade, ali na hora de execução que você tem que improvisar, isso é bobagem. Mas por que isso aconteceu? Porque nós temos uma lei única para o serviço público. Então, se toda a arte agora é feita com o dinheiro público, todas as operações culturais terão que ser feitas como se faz uma ponte, como se constrói uma creche... Então não dá! Tem que ter um regime diferente para a cultura e para a arte, que não seja uma coisa safada, do tipo "pode tudo, viva a arte", não é nada irresponsável. Eu não estou propondo nenhuma irresponsabilidade. Eu estou propondo um regimento especial, no qual os parâmetros são de outra natureza, que não exatamente a nota rasurada.

Quando você vê as coisas funcionando, depois de uma tensão enorme, você fala: "Uau, deu certo". E você ver as coisas acontecendo dá uma satisfação muito grande. Vou dar um exemplo, agora: a gente inaugurou recentemente uma biblioteca reformada e um teatro. A biblioteca era horrível - não que ela fosse, ela tinha se tornado horrível. Aí o arquiteto da nossa equipe foi lá, se apaixonou pelo prédio - o prédio é bonito mesmo - e começou "tira a grade, tira isso, abre a janela, este auditório pode virar um teatro". Está uma graça, está na Vila Formosa, num lugar muito bem localizado, há 100 metros da praça principal. Está lá: um teatro novo chamado Zanoni Ferrite e uma biblioteca renascida das cinzas. Feita com o quê? Com bom gosto, com vontade, com amor do arquiteto pelo prédio, limpou, limpou, limpou, abriu, você vai visitar. Custou R$ 1 milhão, não custou R$ 20, nem R$ 50, custou R$ 1 milhão. Dá satisfação. Você vai lá e vê que valeu a pena.