Esta entrevista faz parte do projeto Produção Cultural no Brasil. Alguns direitos reservados.
Íntegra da entrevista, gravada no dia 16 de maio de 2010 no estúdio Cine & Vídeo, em São Paulo (veja a entrevista em vídeo clicando em http://www.producaocultural.org.br/slider/claudio-prado/)
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Cláudio Prado, eu sou bípede, produtor no sentido lato do senso. Meu pai é pintor, minha mãe é pianista, eu cresci debaixo de um piano de cauda ouvindo a música debaixo do piano. Desde o meu nascimento eu estava envolvido com isso, mas eu diria a você que isso me atrapalha, porque eu não sou nem pintor nem músico.
O que vai acontecer no palco tem que ficar solto até um certo ponto. Se estiver tudo descrito, tudo feito, não é um show, no meu entender, que valha a pena ser feito. Tem que haver um momento mágico e este momento mágico não é planejável, a não ser na hora em que você entende que o planejamento tem que ser uma contagem regressiva onde todos os parafusos estão perfeitamente lá, mesmo porque não pode ser diferente. Mas eles estão a serviço de um mágico e aí sim eu reestabeleço a condição de começar a pensar no planejamento como uma coisa interessante.
O planejamento, para mim, sempre foi castrador. Por exemplo, você diz assim: "o João Gilberto é encrenca, ele atrasa, ele não sei o quê" - é porque as pessoas não entendem o que o João Gilberto precisa, que ele é uma criança, ele é uma criança. É que nem você dizer, se você quiser que uma criança brinque, você não diga lá: "Ó, brinca!", ou marca hora para brincar - ou ela brinca ou ela não brinca. Se você precisa que a criança brinque, você tem que segurar a onda e construir uma condição para ela brincar. O Gil, um minuto antes de entrar no palco, está conversando com você, ele não precisa de concentração, ele não precisa daquela coisa toda, aquele momento, ele não precisa de nada, está dentro dele. Ele vira as costas e fala: "Peraí, então depois a gente continua a conversa", vira as costas, faz um show fodão.
Tem uma molecada que vive falando: "Ah, os anos 60 eram maravilhosos!", uma nostalgia dos anos 60 que é uma coisa romântica. Eu vivo falando para eles: "Os anos 60 eram uma merda, não tinha nada, não tinha condição nenhuma de fazer nada, era difícil, era ruim, era pesado, era bravo, a gente tinha que tirar, espremer pedra para tirar água, era muito complicado". Hoje é o paraíso, nós temos que acabar de desconstruir a ideia da gravadora, acabar de desconstruir a ideia da Globo, mas já estamos avançadíssimos nisso. Quando a gente falava "A Globo é uma merda!" nos anos 60, era Dom Quixote com o Moinho de Vento - o que adianta dizer que a Globo é uma merda? Era inexorável. Agora você tem o YouTube, tem a Globo e tem o YouTube, você escolhe, mas você tem onde ver coisas que você sabia que não existiam. Digite lá "japonês maluco" para você ver o que acontece, você vai descobrir coisas incríveis.
A internet é a coisa mais porra louca que tem. O maior desbunde do mundo é a internet. A internet é o desbunde total. A internet acaba com a telefonia. A internet acaba com a televisão. Você imagina que porrada que é isto em última instância? É a coisa mais subversiva que tem, mais louca que tem, mas é isso que dá a expectativa do delírio. "Ah, não, mas a internet não resolve todos os problemas" - eu nunca disse isso, eu estou dizendo que a internet abre horizontes, ela abre possibilidades, você vê coisas, você se estimula e estimula outros, você vê coisas acontecendo, este é o desbunde, eu vejo ele todos os dias, de gente com sonhos – não tinha gente com sonhos até pouco tempo atrás. O sonho era arrumar um bom emprego, era arrumar um salário.
Isso que está acontecendo agora eu batizei, eu inventei um nome disto: é a molecada pós-rancor, é a atitude cultural pós-rancor. Existe uma coisa rancorosa que está sendo superada, esta coisa rancorosa é a discussão direita/esquerda da política, é a discussão freudiana. Freud é um gênio, mas os freudianos são rancorosos, os freudianos são caras que querem cristalizar Freud do jeito que está. Vai falar de Complexo de Édipo para um moleque emo, vai para a porra! Estes moleques superaram isso já de monte. O mundo está obrigado a se reinventar inteirinho, as gravadoras tem que se reinventar, as televisões tem que se reinventar, as companhias de telefone tem que se reinventar, a indústria tem que se reinventar, todo mundo tem que se reinventar, não tem mais como. O digital provocou uma revolução fodida no meio disto, no meio desta confusão. É uma confusão muito maior do que as confusão dos anos 60.