Produção Cultural no Brasil

Esta entrevista faz parte do projeto Produção Cultural no Brasil. Alguns direitos reservados.

Décio Coutinho

Gestor cultural do Sebrae - Goiás

Íntegra da entrevista, gravada no dia 14 de junho de 2010 no estúdio Cine & Vídeo, em São Paulo (veja a entrevista em vídeo clicando em http://www.producaocultural.org.br/slider/decio-coutinho)

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Para trabalhar cultura dentro do Sebrae você tem que gostar muito, porque é uma entidade que não tem muita afinidade com a cultura, ela sempre trabalhou muito com o mercado tradicional. As pessoas só procuram o gestor de cultura do Sebrae, os colegas dentro do Sebrae, quando precisam de um show, de uma apresentação, de alguma coisa para um evento deles. Então eu vou ter o lançamento de uma campanha: "Ah, chama o Décio, que a gente está precisando de uma banda para tocar". E nessa hora eles me chamam e aí é a hora que eu tenho canal para conseguir as trocas: "Ok, eu te arrumo a banda, mas você vai me fazer isso, vai me fazer aquilo". E assim a gente vai conquistando espaço dentro da instituição.

Hoje o sistema já entende a carteira, já é uma das 42 carteiras estratégicas do Sebrae, a Cultura e Entretenimento, mas ainda falta dentro da casa pessoas capacitadas para trabalhar com esse tipo de setor.

A nossa identidade é não ter identidade. Isso é o que faz a gente diferente, porque o nosso Estado é um Estado central, geograficamente falando, longe do litoral, onde, por ser longe e de difícil acesso, ele não teve todo esse boom, esse movimento que aconteceu na costa brasileira. Então, a riqueza de Goiás é essa diversidade, é esse mosaico, é esse caleidoscópio.

A padronização do artesanato eu acho que é a morte do artesanato, porque artesanato é feito de forma que envolve algum tipo de tradução, de cultura e modo de fazer singular. No momento em que você transforma aquilo numa produção em série, o que a gente precisa é saber como agregar valor a este artesanato e acho que uma das formas mais importantes hoje é você saber contar histórias. Nós não sabemos contar histórias. Quando a gente vai para fora, as pessoas falam: "Nesta cadeira, Mozart sentou" – e ficam uma hora contando o dia em que Mozart sentou naquela cadeira, e todo mundo bate palma, tira foto da cadeira e paga 5 euros para ver a cadeira.

O primeiro passo é mapear, entender o que existe. O segundo passo é, em mapear, você registrar e proteger para aí sim, num terceiro passo, você fomentar. Talvez tenha que passar por este processo: conhecer o contador de causo, conhecer a senhora que faz até hoje a chica doida, conhecer aquela pessoa que ainda faz a folhinha em latim - que você sabe que existe - e conhecer, mapear, registrar, através de audiovisual, CD, documentários, estudos, teses – não querendo nem engessar, nem parar no tempo, mas registrar para preservar.

No momento em que eu trabalho num território criativo sem pensar na política pública ou sem pensar na infraestrutura, ou sem pensar nos talentos, o processo é falho, ele não evolui por muito tempo. Então o desafio é você ter essa visão holística, biológica e saber que você tem que atuar com uma série de frentes paralelas - umas mais rápidas e outras mais lentas, mais que uma depende da outra. E a velocidade deste território vai ser a velocidade do mais lento porque está todo mundo junto, não tem como separar. Então, se a política pública não anda, o território para. A gente forma os gestores mas ainda falta muito conteúdo e muita ferramenta, é uma coisa meio de garimpo mesmo, é uma coisa meio de buscar experiências que deram certo em outros Estados, em outros países e tentar apreender isso e tornar isso prático dentro dessa realidade. No momento que você põe um mestre, capitão de congada, para conversar com um professor universitário, ou com um gestor público, e você media este encontro, esta inteligência se transforma numa sabedoria. Aí este é o desafio: você unir essas pessoas e criar essas convergências, essas interações – mas que sejam de forma inteligente, porque existem muitas redes que são redes mortas. O difícil é criar essa rede viva e inteligente. Depende do engajamento, de uma mobilização em prol de algo comum.