Produção Cultural no Brasil

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Juliano George Basso

Produtor do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

Íntegra da entrevista, gravada no dia 30 de maio de 2010 no estúdio Cine & Vídeo, em São Paulo (veja a entrevista em vídeo clicando em http://www.producaocultural.org.br/slider/juliano-george-basso/)

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Meu nome é Juliano George Basso, eu sou presidente da Associação Comunitária da Vila de São Jorge. Sou fundador da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge e realizo e coordeno um Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros que, em 2010, vai para o seu décimo ano.

Eu tive, assim, a tristeza de poder me deparar com os avá-canoeiros, que são os nossos índios da região, o qual só sobraram cinco pessoas escondidas em cavernas, que eu tive contato há pouquíssimo tempo. Eu fui ver na comunidade quilombola dos calungas, completamente isoladas lá no seu lugar com suas festas, tradições. Isso fez com que me empenhasse em conhecer o lugar onde a Chapada dos Veadeiros, não só o lugar em si, mas São Jorge, o Alto Paraíso... E aí eu fui me dando conta e dimensão do tamanho da riqueza na qual a gente estava ali. Mas uma riqueza humana, da cultura, e um resguardo mantido ainda desde as primeiras formações dos povos que vão dar origem ao Brasil, que estão dando ainda até hoje, porque eu acho que a gente está se formando. Então é uma região muito rica, fez com que a gente pensasse em criar: "Vamos criar um encontro para essas pessoas se conhecerem, que estão aqui todas, e reunir elas".

Eu acho que é muito complicado, hoje em dia, até para a gente, entrar num projeto, num Siconv com notas, três orçamentos de empresas, toda essa burocracia que foi feita, dita, para não se desviar recursos públicos, mas, na verdade, isso contribui muito mais não para o não desvio de recursos públicos, mas para o inacesso às comunidades, aos mestres, aos grupos tradicionais. Então, hoje, a única maneira que está tendo são os prêmios, o prêmio que é feito pelo Ministério da Cultura, que funciona muito bem. Mas só tem isso - e olha que o governo é muito grande, tem muitas coisas. Então eu acho que sem um mediador, sem uma pessoa que... Eu acho que dentro disso vai muito de uma ética de uma pessoa e de uma escolha também pelas pessoas da comunidade e de confiança naquela pessoa. O encontro funciona também como um mediador para políticas públicas para essas comunidades tradicionais e a minha visita a esses lugares é super importante para poder estar fazendo essa ponte.

O começo é feito assim: as pessoas da comunidade, Doroty Marques ensinando as crianças e montando uma ópera que vai ser apresentada no encontro, com a Aristelina Avelino do Nascimento, a Atila, que é a tesoureira da associação e cuida das prestações de conta, de deixar tudo certinho para que não possa faltar nada disso. E a gente tem uma equipe lá do Turma que faz os agentes culturais, formada por nós mesmos e que também ajuda. Toda a comunidade trabalha. Hoje em dia, a comunidade faz a logística da hospedagem, do transporte, da alimentação, da feira (que é uma feira de oportunidades sustentáveis da região) - então a base está lá. Essas pessoas estão lá, estão trabalhando o ano inteiro. Então chega um encontro que elas vão receber pelo período que vão trabalhar extra, mas na verdade elas estão sendo voluntárias o ano todo. E a gente já formou nestes 10 anos vários profissionais em Goiânia, em Brasília, que hoje trabalham com culturas tradicionais. Hoje o movimento, assim, a gente fica achando isso muito bom porque as pessoas que trabalharam no encontro já fomentam outras coisas, em outros lugares, então isso foi um movimento que foi crescendo também para outros lugares. Só de trabalhador tem 70 que chegam a passar lá num encontro de 800 a 1 mil artistas de cultura tradicional, entre indígenas, quilombolas, sertanejos, faxinais, fundo de pasto, quebradores de coco, pescadores artesanais, todos estes que são comunidades, povos tradicionais.

Todos nós somos brasileiros, mas eles têm, eu acho, certas especificidades de pensamento, que, para nós - que temos um pensamento mais científico, ocidental, que estudamos todas estas coisas, é muito importante perceber, respeitar e poder aprender. Porque se você tem povos indígenas que vivem há tanto tempo em uma sintonia com a natureza e todas essas coisas – que é uma necessidade das gerações futuras - vem assim para a gente pensar mais porque o tempo é tão longo, se a gente ficar gastando tudo logo depois as pessoas lá da frente vão xingar a gente, vai ficar só o conto de "era uma vez".