Produção Cultural no Brasil

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Pablo Capilé

Articulador do Circuito Fora do Eixo

Íntegra da entrevista, gravada no dia 16 de maio de 2010 no estúdio Cine & Vídeo, em São Paulo (veja a entrevista em vídeo clicando em http://www.producaocultural.org.br/slider/pablo-capile)

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Meu nome é Pablo Capilé, eu sou um dos coordenadores nacionais do Circuito Fora do Eixo, sou vice-presidente da Abrafin - Associação Brasileira dos Festivais Independentes e integrante do coletivo Espaço Cubo, de Cuiabá.

A gente faz um festival, o festival é muito bacana e a gente percebe que precisaria de ações o ano inteiro. Surge então o coletivo Espaço Cubo, que começa a chamar as bandas para ensaiar, depois começa a colocar as bandas para tocar, começa a divulgar essas bandas, começa a fazer com que essas bandas gravem, lança uma moeda complementar, se estrutura localmente, participa de um conselho de cultura, elege conselheiro municipal, começa a negociar de uma maneira mais forte com a secretaria municipal, com a secretaria estadual, começa a pensar em programas que poderiam ser replicados pelo poder público, começa a crescer localmente e começa a perceber que pode negociar com outros coletivos também do terceiro setor pelo resto do país. Esta costura, esta articulação é um dos pontos de construção mais fortes do Circuito Fora do Eixo. Então, o Espaço Cubo surge em cima disso.

Então o Espaço Cubo começa já numa perspectiva de trabalhar com economia solidária, já não tem grana da iniciativa privada, não tem um mercado. O poder público não nos visualiza, então a gente vai ter que empreender e, para a gente conseguir empreender, entendendo que ninguém vai estar necessariamente sobrevivendo disso num primeiro momento – e, mesmo quando sobreviver, vai ser dividindo marmita, vai ser construindo uma coisa em conjunto, onde todo mundo vai receber pouco, vai receber pouco porque a gente vai por anos e anos e anos estruturar um processo todo. A economia solidária lastreou e lastreia até hoje a gênese desses trabalhos que a gente desenvolve.

O fornecedor de som não entende a importância dessa perspectiva comportamental da cultura para o jovem que está envolvido, ele não vai entender a importância de se aceitar uma moeda complementar, ele não entende esse intangível que envolve o nosso processo, então a gente tem que pagar ele com espécie. Mas a pessoa que está envolvida diretamente entende esse capital simbólico, esse capital intangível. Então, quando você tem uma moeda para esses que entendem esse intangível, você consegue ter um fluxo para investimento no nosso banco de estímulo que mantém as pessoas dispostas a continuar trabalhando mesmo ganhando pouco. Moedas complementares existem no mundo inteiro, talvez a gente demorou demais para entender que existiam no mundo inteiro. Isso até foi benéfico porque a gente não se contaminou com algumas perspectivas acadêmicas e teóricas sobre moeda complementar, mas isso funciona dentro de uma comunidade, quando os caras da comunidade tem um Carrefour do lado. Então, a o invés de todo mundo ir comprar no Carrefour, você tem uma moeda solidária na própria comunidade em que todo mundo consome dentro da comunidade, ao invés de ir dar a grana para um supermercado. Então você tem uma moeda complementar, você tem bancos de trocas, então as pessoas chegam com o seus serviços, depositam horas de serviço em troca, então você tem outras comunidades em que o cara vai lá e deposita duas horas de serviço de pedreiro e recebe duas horas de dentista porque tem um depósito de dentista feito ali e eles estabelecem estas trocas. Mas, por exemplo, mesmo quando eles não são lastreados por economia solidária, têm exemplos como o da Trama: a Trama criou um download remunerado. Este download remunerado, de certa forma, é uma moeda complementar e esta moeda complementar, que é em cima de uma outra lógica, está calcada nas perspectivas capitalistas tradicionais, mas funciona também como moeda complementar.

Ah, não, é fundamental. Você pode até começar na louca de querer fazer e vamos fazer acontecer, mas pouco a pouco você vai ter clareza que é fundamental você conseguir visualizar o que vai ser o próximo passo, mas minimamente criar um ambiente favorável para se chegar neste próximo passo. Na espontaneidade, na naturalidade, de qualquer jeito, é impossível. Eu não acredito em sorte. Eu não acredito em dom. Eu não acredito que as coisas caem do céu. Eu acredito que é 99% transpiração e 1% inspiração. Se as pessoas não tiverem muito dispostas a fazer a coisa acontecer, a coisa não vai sair do lugar, não tem mais nenhum iluminado nessa história. Eu acho que a internet vem e acaba e ela mata Deus, ela resignifica a imagem de Deus para os envolvidos com o setor cultural. Não tem mais os seres que são próximos deles. A internet vem e fala assim: "Está todo mundo na mesma". Você sai daquela perspectiva do tronco - que antes as pessoas eram só galhinhos em meio aos troncos da academia, da grande indústria e etc - e entra numa perspectiva de grama. Esta perspectiva de grama te faz do mesmo tamanho.