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Diretor e dramaturgo da Cia do Latão
Íntegra da entrevista, gravada no dia 30 de abril de 2010 no estúdio Cine & Vídeo, em São Paulo (veja a entrevista em vídeo clicando em http://www.producaocultural.org.br/slider/sergio-de-carvalho/)
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Eu sou Sérgio de Carvalho. Eu sou diretor de teatro de um grupo chamado Companhia do Latão. Eu sou também professor de dramaturgia na Universidade de São Paulo e vivo aqui em São Paulo. Ele é um grupo de teatro experimental, crítico, que procura produzir peças-processo, quer dizer, são peças que se desdobram em outras peças, que mostram painéis históricos, e é um grupo que foi fundado em 1997 e que reúne mais de 20 artistas, produtores que trabalham sobretudo com criação coletiva.
O teatro é uma arte em que você se transforma em outra coisa, é uma arte de imaginação, o público visualiza neste espaço um outro mundo. O ator entra em cena, no Hamlet, e diz assim "Quem está aí?", aí o outro fala "Diga você!". Eles estão no escuro. O espectador começa a ver aquilo e visualiza uma noite estrelada num castelo em Elsinore.
Você começa a gostar de futebol quando você entende um pouco das regras. No teatro é a mesma coisa. Você precisa ver um pouco das regras do funcionamento dele, que no fundo são as regras do funcionamento social. O teatro ensina muito sobre a vida em geral, então eu acho que... Eu não vejo crise no público de teatro, não, como muita gente diz. Tem crise para certo setor de um tipo de teatro, mais comercial, este talvez viva uma crise. Mas o teatro de invenção não está em crise. No caso mais específico do teatro de pesquisa de grupo, com trabalhos coletivizados, ou alternativos, ou na contramão do sistema convencional, eu sinto que houve uma melhora. Eu sinto que hoje há mais grupos politizados, inventivos, inesperados, do que havia há 20 anos. A ideia é pensar em formação de público no sentido de que não é o público ou o artista que vai formar isso, é um processo que depende de outras coordenadas. Quando você leva trabalho para um lugar e as pessoas começam a ver o que aquele trabalho pode trazer de diferente, este trabalho encontra público. A minha experiência pelo menos é esta. A história do Latão é uma história também de descoberta de um público e de aprender com este público.
Eu acho que, na verdade, é mais fácil falar isso pelo que ele não deve ser, do que o que ele deve ser. Eu acho que o produtor cultural não deve ser... Ele não deve mercantilizar algo que se liga à possibilidade da diferença da mercadoria. O padrão mercantil é um padrão de repercussão do mesmo, quer dizer, o sucesso de um refrigerante depende dele atingir quantitativamente o maior número de pessoas. A qualidade dele não é se ele é bom ou mau, mas sim se ele for mais vendido, tiver mais público. Arte é diferente. A qualidade do Beethoven não muda se ele for mais ou menos vendido. A qualidade de um grande escritor não depende dele chegar em mais gente, depende de uma coisa que está ali impressa na obra. Então, é neste sentido. Eu acho que o produtor cultural tem que se libertar desta lógica mercantil.
Sem essa disposição de ir contra você não faz nada de interessante - eu acredito nisso - porque, de fato, os espaços já estão muito condicionados, já tem um sistema, as instituições que controlam a cultura se solidificaram, inclusive nos últimos anos mais ainda, porque elas tiveram dinheiro público para se solidificar. Os canais de acesso são controlados, você já tem um sistema de mídia, mediado por assessoria de imprensa, que organiza quem vai ter o seu lugar. Quando você começa a trabalhar e procurar, você vê que existem outros lugares do mundo além deles, existem outras pessoas que produzem diferente, inclusive. Você consegue furar este bloqueio, às vezes, se você insiste. Então, claro, é mais fácil você ir na maré do que você tentar criar espaços diferentes, isso da mais trabalho. Mas é isto: se você faz arte é porque você gosta de um trabalho torto, de um trabalho do avesso.