Esta entrevista faz parte do projeto Produção Cultural no Brasil. Alguns direitos reservados.
Íntegra da entrevista, gravada no dia 30 de abril de 2010 no estúdio Cine & Vídeo, em São Paulo (veja a entrevista em vídeo clicando em http://www.producaocultural.org.br/slider/vincent-carelli/)
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Olha, antes de mais nada eu acho que eu sou um indigenista. Mas, sem dúvida, no auge da minha crise existencial de adolescente, foi uma experiência tão marcante - aliás, Darcy Ribeiro já dizia que ninguém visita impune uma aldeia indígena, é uma coisa... e assim foi comigo. Foi tão importante, no sentido da minha formação, descobrir que o mundo é muito maior do que a gente imagina, que me fascinou. Eu me apaixonei por isso e é o que deu sentido à minha vida.
É da convivência, do conhecimento do mundo indígena que surge o projeto de, numa primeira etapa, botar a minha câmera a serviço de projetos culturais indígenas e, depois, uma escola de cinema para eles. A minha ideia era um pouco no intercâmbio de experiências, mais numa linha de experiência de contato, problemas, madeireiro, garimpo, enfim, demarcação, todos esses problemas que afetam os índios. E, já de saída, a primeira experiência foi radical, no sentido de que o audiovisual é para valorizar questões culturais. Então, é um cinema muito na linha do cinema direto, um cinema de observação, é um cinema que discute, que deixa a realidade brotar. Nós não temos roteiro, são filmes em que o roteiro é construído progressivamente. É um cinema que valoriza o imprevisto, o espontâneo. Tudo o que está fora do roteiro é sempre mais genial do que você teria pensado anteriormente. E é um cinema comprometido com o coletivo, não é um cinema autoral no sentido clássico, de um índio falar: "Vou fazer isso!". Não! É um cinema que brota de um movimento coletivo e que está comprometido com as demandas dessa coletividade.
A cultura popular sempre foi pulsante, nunca teve subsídio porque é uma coisa que brota, é uma necessidade de expressão. Eu acho que o que mudou foi a gente poder compartilhar essas coisas, a gente ter acesso e essa informação circular pelo Brasil, justamente para se deixar de ser um país americanizado.
O Vídeo nas Aldeias é um projeto de inclusão cultural. Índio era visto como bicho-do-mato. Eu acho que é muito difícil ainda as pessoas entenderem, porque índio é uma ficção na cabeça das pessoas – e isso é gravíssimo politicamente, porque discrimina. O Brasil, como dizia o Eduardo Viveiros de Castro, quase que criou duas categorias de índio: os que ainda são e os que não são mais. Aquela visão de que os índios estão fadados ao desaparecimento, que os verdadeiros índios são aqueles pelados no Xingu e que os coitados que estavam no litoral nordestino, que perderam a língua e tudo mais, já não são mais, não têm direito a nada. Então, mudar essa perspectiva, entender que os índios fazem parte do país, fazem parte do futuro do país, que modernidade e tradição são coisas que convivem perfeitamente e que se enriquecem, que os índios querem participar da modernidade, isso é o passo fundamental que a gente tem que dar. E os índios não podem ser prisioneiros da nossa ficção do bom selvagem. Índio de celular e Nike também é índio. Índio está na cabeça, não está nos Nikes.